Black metal e relações conturbadas: Entrevista com Guilherme Grandizolli sobre a HQ “Dying Light”

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Conciliar o amor pela música com o trabalho. Essa é a difícil tarefa de Nina, protagonista do quadrinho Dying Light, que, junto das colegas da banda de Black Metal, luta para gravar seu primeiro álbum enquanto lida com um produtor exigente e uma relação problemática com a mãe.
 

A história, que conta com roteiro e arte do quadrinista e ilustrador Guilherme Grandizolli, está sendo publicada na plataforma Tapas e futuramente ganhará uma versão impressa. 
 

Para conhecer mais sobre o processo criativo de Dying Light, assim como as inspirações, batemos um papo com Guilherme. Confira a entrevista: 
 

Como surgiu Dying Light?
 

Em primeiro lugar, muito obrigado pelo convite e pela oportunidade de falar sobre meu trabalho aqui, sou muito grato! Eu comecei a ter a ideia em 2017, quando estava escutando muitas bandas de Black Metal, inclusive algumas formadas apenas por mulheres. Artistas como Myrkur, Nervosa, Asagraum e Sylvaine me inspiraram muito na época, então pensei “por que não fazer um quadrinho disso?”. Como se trata de uma banda de Black Metal, um dos estilos mais obscuros da música com histórias reais muito assombrosas dos próprios músicos, acredito que essa atmosfera tenha servido bastante de inspiração. Além dessa inspiração inicial, vários acontecimentos na minha vida pessoal me inspiraram para escrever a história, principalmente a relação com a minha mãe, que na época estava muito frágil. Posso dizer que apesar de ser uma história ficcional ela carrega grande carga pessoal, e me serviu como forma de dar vazão a sentimentos que lutava para não entrar em contato. Foi muito terapêutico escrevê-la, mas também muito doloroso. O nome da banda, Dying Light, foi inspirado no poema de Dylan Thomas “Não Adentre A Boa Noite Apenas com Ternura” (Do Not Go Gentle Into That Good Night), que traz vários aspectos para a história em si.
 

Na história, Nina concilia seu amor pela música com o trabalho. Levando em conta o cenário atual do Brasil, quando falamos de arte, é algo comum. Quais considera suas inspirações para a criação da história?
 

Realmente ser artista no Brasil é algo que não é fácil, ainda mais se tratando de trabalho autoral. Mesmo no caso de bandas de metal do Brasil (e exterior), muitos conciliam suas bandas com seu trabalho ganha-pão, como forma de sustentar seu amor. Eu, como quadrinista, faço o mesmo, tenho meu trabalho mais comercial, mas dedico um bom tempo suado para o meu amor pelos quadrinhos. Não posso reclamar da minha vida atualmente, mas conciliar os dois não é fácil. No quadrinho coloquei a Nina sobre diversas formas de pressão, tanto como o trabalho, como a pressão religiosa-moral da mãe, entre outras que ainda vão ser reveladas. Eu posso me considerar privilegiado por trabalhar com o que amo, mas sei que muitas pessoas não têm essa chance, e devem provar diariamente, com cada desenho, o valor do seu trabalho, seja para os próprios pais ou para a sociedade brasileira. Apesar da Nina ter surgido como uma personagem ligada diretamente à experiências pessoais minhas, quase de forma autobiográfica (ênfase no “quase”), acredito que muitas pessoas amantes de música/arte passam pelo perrengue de conseguir se sustentar com seus desenhos ou com sua banda, tudo em favor de um sonho.
 


 

Em Dying Light, Nina canta Black Metal. Já em seu outro quadrinho Metal Philosopher, um garoto descobre e tem a vida modificada pelo heavy metal. É clara a influência da música em suas histórias. Conte um pouco sobre isso.
 

Apesar de eu ser uma pessoa que ouve vários tipos de música, o metal (e seus trocentos subgêneros) sempre tiveram uma parte especial no meu coração. No meu primeiro quadrinho Metal Philosopher mostro como tive contato pela primeira vez com o gênero e, acho que é a primeira vez que falo isso, mas essa HQ foi uma espécie de teste para eu contar histórias, mas acabei gostando bastante do resultado. Eu também me pergunto o porquê de fazer tantas histórias sobre esse tema…além do próprio som me cativar muito, ele encapsula muitos outros temas: negação, raiva, medo, tristeza e fraquezas. Percebo também que muitas pessoas que ouvem metal, pelo menos as que eu conheço, são muito sensíveis, então isso dá um berço para várias histórias interessantes. Já vi muitos quadrinhos sobre músicas, rock e bandas, mas quis dar os meus dois centavos desse gênero para contribuir, pois não vejo muitas HQs sobre o estilo (posso estar enganado!). Geralmente eu ouço Metal quando estou feliz e bem disposto, eu costumo falar que é o meu “axé”, uma música que, mesmo pesada, me deixa pra cima e com energia. O que é mais legal de fazer quadrinhos voltado para o metal é como o público que é fã do estilo é receptivo com os meus desenhos e também muito gratos por existir um quadrinho falando sobre eles. As pessoas, pelo que vi até agora, se identificaram bastante com Metal Philosopher, mesmo não sendo fãs do gênero, mas os metaleiros/metaleiras se identificam bastante. Espero conseguir isso com Dying Light também!
 

Como é seu processo de criação?
 

Bom, primeiro eu sofro muito, depois escrevo 🙂 (brincadeira). Eu não tenho muitas histórias em quadrinhos, mas posso falar sobre a Dying Light. No caso de Dying Light, a ideia surgiu com um desenho das três personagens principais, com um traço muito diferente do que desenho elas hoje, e resolvi fazer uma história sobre essa banda. Sim, começou de forma bem descompromissada. Aos poucos fui fazendo mais sketches e as ideias foram surgindo nesses desenhos, mas logo vi que tinha algo maior lá, e decidi me concentrar apenas na parte da escrita. Engraçado que escrever uma ficção parece tatear no escuro: as coisas parecem já estar lá, mas você não as vê até encostar nelas. Os acontecimentos vão aparecendo na sua frente e claro, algumas coisas eu mudava de lugar para maior impacto, mas tudo da história que julgava “legal” soava natural ao escrever. Aos poucos a história foi se juntando e passei 2017, 2018 e 2019 escrevendo. Depois disso me concentrei em achar um estilo de desenho que sustentaria bem esse quadrinho, mas foi um processo demorado. Fiquei muito tempo pesquisando referências de desenho e composição, assim como fotografias e imagens que me inspirassem para o projeto. No começo eu achava que devia fazer algo mais realista e logo vi que me cansaria de desenhar assim, então decidi fazer mais cartoon, que me divertia mais fazendo, e algo que eu soubesse fazer tranquilo. No final das contas eu queria me divertir fazendo essa HQ, afinal ia passar muito tempo desenhando ela, então optei por muita coisa que não deixasse o trabalho chato. Depois fui fazer os thumbnails de cada página, que por sinal ainda não terminei, é um processo que parece chato, mas me salva muito tempo depois. Acho que a parte que mais gosto é da finalização em preto, parece que é nessa hora que os desenhos começam a tomar vida.
 

Leia Dying Light no Tapas

 


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