Alexandre Montandon questiona sobre “lembranças do futuro” em nova HQ

9 de Março de 2017 às 14:50 | Por

Cristovão e o Segredo do Tempo é o segundo projeto autoral de Alexandre Montandon. A história de um menino simples do interior que sonha em viajar o mundo ganha uma reviravolta quando, após um triste notícia, o menino é levado a enfrentar uma jornada através dos labirintos do tempo em busca de respostas cruciais para a definição de seu futuro. Uma história sobre transformações e descobertas, que começa com uma simples pergunta: “O que você se lembra do seu futuro?”

 

 Em entrevista exclusiva com o autor, não pudemos deixar passar a oportunidade de fazer o maior questionamento de sua obra: Começamos com a pergunta mais difícil: “O que você se lembra do seu futuro?”

 

Esse é o tema central da história. Pense em seus sonhos, eu diria, eles são as memórias mais próximas que temos do futuro. Eles nos definem mais que o nosso passado. Não por acaso, o livro começa com uma citação de Stefano Elio D’Anna que diz: “Há de chegar o dia que se ensinará que o sonho é a coisa mais real que existe…E que isso que o ser humano chama de realidade não é outra coisa que reflexo do seu sonho”.

 

O livro “Cristovão e o Segredo do Tempo” nasceu de um sonho, de algo que visualizei no futuro e trouxe, aos poucos, para a minha realidade no presente. É claro que ele tem ressonância com meu passado, com minha história de vida, mas ele foi cultivado no futuro, com o desafio de escrever sobre aquilo que ainda não sabia, e que tenho o prazer de descobrir. O que quero dizer com isso é que muitas pessoas, sem perceber, vivem o reflexo de seus passados, repetindo rotinas e tomando decisões baseadas em experiências passadas, e tudo isso pode acabar sufocando seu anseio por sonhar, por se reinventar. Daí vem a pergunta: “O que você se lembra do seu futuro?”.

 

Como surgiu a história de Cristovão? Quão complexo é trabalhar com um tema que envolve as profundidades do tempo e as transformações na vida?

 

A história de Cristovão começou a nascer em uma conversa entre amigos, onde decidimos nos aventurar em uma publicação digital chamada “Travessias”. Faziam parte desse bate-papo Laudo e Will, dois artistas pelos quais tenho admiração. O projeto teve apenas uma edição, mas serviu como uma semente para plantar a ideia do livro. Talvez assim se forme o futuro, da atitude de fazer algo improvável, que te tire da rotina e te desafie, e ao mesmo tempo tenha afinidade com seu coração. Percebi que era sobre isso que queria escrever… e comecei, literalmente, a sonhar. Monica Lan, esposa de Will, que trabalha com autoconhecimento, foi quem me deu o cutucão inicial para eu começar a “lembrar desse futuro”.

 

A complexidade do roteiro está em quebrar alguns paradigmas que temos em relação a forma como construímos a ideia do tempo. Mas principalmente questionar o valor que damos à vida. Não é a toa que o roteiro, pensado inicialmente para 64 pgs, foi ganhando profundidade e chegou a mais de 150 pgs. A edição que foi lançada agora pelo ProAC traz o primeiro arco dessa aventura, mostrando os passos iniciais e levando o leitor a entender a primeira “lei do tempo”. Para desconstruir a ideia de linearidade do tempo, pensei em escrever esse roteiro como se fosse um quebra-cabeça, onde primeiro vou entregando ao leitor pequenas partes desconexas para que ele, no final, seja capaz de montar sua própria imagem deste quebra-cabeça. Já estou trabalhando na segunda parte que concluirá essa aventura e que deverá ser lançada no FIQ de 2017.

 

A obra foi selecionada pelo ProAC. Você acha importante esses meios de captação de recursos para o quadrinho nacional?

 

Acho fundamental. Tanto o ProAC, como o crowdfunding, impulsionaram a produção independente e a qualidade dos quadrinhos no Brasil. A alegria de ser selecionado no ProAC, por exemplo, se compara a vencer um prêmio de quadrinhos, pois ali estão concorrendo grandes artistas de todo o Estado de São Paulo. Nesse sentido, o ProAC realmente cumpre seu papel em selecionar obras de qualidade e incentivar a melhoria da produção de quadrinhos. Esse apoio é essencial, pois os novos trabalhos vão elevando esse padrão de qualidade e vão inspirando o surgimento de uma nova leva talentosa de artistas. E isso também começa a se refletir nas editoras, que passam a olhar para esse mercado com mais profissionalismo. Essa é uma onde positiva que define a importância do ProAC. O Catarse também merece destaque nesse processo de captação de recursos. Diferente do ProAC, quem decide se seu trabalho será viabilizado é o próprio leitor. E isso é fantástico, pois permite ao autor lançar seu projeto ao mesmo tempo que ele começa a formar um público para sua obra, que poderá ser seu leitor para as próximas produções. Na última CCXP, realizada em dezembro, tínhamos uma grande quantidade de lançamentos oriundos desses meios de captação de recursos.

 

 

Foi seu segundo projeto aprovado. Qual dica dá para aqueles que queiram também financiar seus projetos pelo ProAc?

 

Acho que não existe fórmula mágica, o que existe é uma boa ideia apresentada de uma forma que desperte a curiosidade em quem está selecionando os trabalhos. Nas duas vezes que tive o prazer de ter um trabalho escolhido, procurei apresentar o projeto com todos os personagens principais descritos e ilustrados e, pelo menos, com as 10 páginas iniciais finalizadas, pois se você consegue prender a atenção do leitor nesse início, você aumenta as chances de sucesso do seu projeto. É importante lembrar que tem muito autor bom participando, então é preciso pensar na apresentação como um grande “trailer” do seu projeto.

 

Jornalista. Sonho em me tornar uma mistura de Lizzie Bennet e Tracy Whitney, tirando a parte fora da lei. Ler e escrever são o que mais gosto de fazer. Fico nervosa sem um livro na bolsa ou quando não acho caneta e papel quando a inspiração vem. Tenho sonhos a lá filme de Spielberg, ilusões amorosas por Mr. Darcy e obsessão por Harry Potter.