Resenha HQ “Olimpo Tropical”, de Laudo Ferreira e André Diniz

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Se pedir para alguém explicar o que é o Olimpo, com o mínimo de conhecimento de mitologia, a pessoa responderia ser a morada dos deuses. Entretanto, Olimpo Tropical foge dos mitos e mostra a cruel realidade contemporânea. A sede de sangue e poder podem ser comparadas a algumas narrativas mitológicas conhecidas, mas o contexto é bem diferente.

 

André Diniz optou por nos apresentar Biúca, seu desejos e medos, que vão além do contexto ao qual está inserido. Ao mesmo tempo que serve como própria representação do lugar. É como ver por trás de tantas histórias que nos aparecem nos noticiários, que só ganham manchetes através de tragédias, ou, raramente, superações. É acompanhar uma pessoa cuja maior oportunidade que encontra é se juntar ao tráfico e procurar respeito atrás de uma arma.

 

Biúca está no limiar entre a humanidade e a busca pela divindade. A cadeira que serve para auxiliar na sua função – atirar nos policiais que ousarem invadir a favela pela única escada que serve de acesso –  é qual a um trono, um símbolo de uma vida melhor para um jovem sonhador.

 

As ações de Biúca não são utilizados como exemplo e nem ao menos julgadas. Contudo, para toda ação, uma reação. E em meio ao tráfico, essa extrema é levada ao pé da letra. As consequências dos atos, as possibilidades trágicas, rodeiam a vida de todos inseridos naquele lugar, incluindo o protagonista. Somos guiados acompanhados dessa sensação de fatalidade prevista.

 

O bizarro é que algo que deveria surpreender, parece tão familiar. Que deveria ser rebatido, é naturalizado. É esse o peso maior que a HQ nos mostra, percebermos a nossa própria condescendência diante a violência. É um tapa na cara. Sem necessidade alguma de até mesmo, estar dentro da favela, em cima dos morros. Basta acompanhar as notícias de um jornal, escutar frases como “mais um foi para a estatistica”, e “outra família que sofre”, a violência foi banalizada.

 

O que desenrolam são cenas de um cotidiano que deveriam chocar, com figuras conhecidas, que nem ao menos precisam de um nome para serem reais. Os traços de Laudo nos trazem personagens naturais, mas com um Q caricato, presente na maioria de suas obras. Os cenários são detalhados, afinal, é como se dividissem o protagonismo com Biúca. Subindo a longa escadaria, entre becos e casas desordenadas, entre botecos e campinhos, são traficantes, policiais, estudantes, crianças e jovens presos a um cotidiano ao mesmo tempo caótico e sistemático.

 

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André Diniz é roteirista e desenhista brasileiro de HQs. Publicou mais de 30 títulos por diversas editoras brasileiras, tendo sido publicado também na França, Inglaterra, Polônia e Portugal, país onde vive hoje. Entre seus trabalhos mais conhecidos, estão 7 Vidas, Morro da Favela, Que Deus Te Abandone e O Idiota.

 

 

 

Laudo Ferreira é roteirista e desenhista, atuante há muitos anos no cenário dos quadrinhos no Brasil. Já ganhou vários prêmios da área, como HQ Mix e Ângelo Agostini, tanto como desenhista ou roteirista, como por seus trabalhos, destacando “Yeshuah Absoluto”, “Cadernos de Viagem” e a minissérie “Depois da meia-noite”.

Entre seus inúmeros trabalhos lançados, os que mais se destacam por sucesso entre leitores e críticas, estão a trilogia de álbuns “Yeshuah”, “História do Clube da Esquina”, “Cadernos de Viagem”, a série da personagem Tianinha, e as adaptações de “Auto da barca do inferno” e do filme “À meia-noite levarei a sua alma”.


#Quadrinhos   ; ; ;


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