Resenha: Graphic novel “Matei Meu Pai e Foi Estranho”, de André Diniz

17 de Janeiro de 2018 às 20:41 | Por

Sinopse: Zaqueu começa com Z, a última letra do alfabeto. Deslocado por natureza e vocação: Zaqueu nasceu albino, de cabelos e pele mais que brancos, em meio a uma família de gente morena. Nasceu artista, embora a sua família nem imagine o que seja isso. É pobre, mas estuda em escola de rico – o patrão do seu pai é mesmo um sujeito generoso. Conhecemos e tornamo-nos Zaqueu nos seus momentos triviais e também nos marcantes. Mesmo em em uma cidade de 12 milhões de habitantes, Zaqueu procura o seu lugar, talvez em vão, mas procura. Ele sabe que São Paulo vai devorá-lo vais cedo ou mais tarde. Pois que venha, então.

 

 

Se você acha que pelo título já descobriu tudo o que pode esperar de Matei meu pai e foi estranho, está extremamente enganado. Há muito mais coisas por trás do que revela o nome, o que torna a história inesperada. Assinada por André Diniz (“Olimpo Tropical”), a graphic novel publicada pela Jupati Books (Marsupial), conta a história de Zaqueu, um garoto de 14 anos, que bem…. mata o pai.

 

 

O relacionamento de Zaqueu com o pai, ao qual a história explora, é extremamente conturbado e o menino tem um sentimento dúbio por ele. Ao mesmo passo que procura o amor da figura paterna, começa o odiar pela forma como ele o destrata por ser diferente da família. E não estamos falando apenas de diferenças físicas, por ser albino em uma família de pessoas morenas, mas também na forma como o garoto lida com a vida. Ao contrário do irmão mais velho, Zaqueu é inteligente e observador, se expressa pela arte, por onde retrata cenas banais do cotidiano que presencia em suas longas caminhadas pela cidade de SP, que é uma forma de fugir por algum tempo do difícil convívio familiar, cheio de brigas, ausências e grosseria.

 

A mãe do menino também aparece como uma figura distante e muitas vezes complacente com os mal-tratos do marido. Fazendo assim com que Zaqueu só tenha um bom relacionamento com a irmã mais nova, Tonha, ao qual tenta, de alguma forma, proteger.

 

A narração da história fica por conta do personagem principal, o que faz todo o sentido, já que são as motivações de Zaqueu a base para todos os acontecimentos. Entrar na cabeça dele pode ser confuso, em diversos momentos seus pensamentos duelam com suas ações e falas, e assim, é possível perceber as dificuldades de um adolescente que, em meio aos impasses típicos da idade, como problemas na escola e descoberta do sexo oposto, tem de lidar com um ambiente familiar tóxico.

 

Em preto e branco e brincando com várias tonalidades de cinza, André Diniz utiliza principalmente dos contrastes para acentuar o tom da narrativa. Seu traço tem a peculiaridade de ser marcado de formas geométricas e cheio de pontos e traços, encontrados também para determinar detalhes e ações. Eles auxiliam ainda que a principal característica física de Zaqueu, ser albino, tenha destaque, já que preenchendo o cenário em diversos momentos é realçada a palidez do rapaz.

 

André Diniz promove uma narrativa que vai em uma crescente, atiçando a curiosidade do leitor, que apesar de ter o final revelado pelo título da obra, se surpreenderá qual o caminho percorrido até o desfecho e como ele se realiza. Mesmo após o término da leitura você continuará pensando em Matei Meu Pai e Foi Estranho. Pois realmente foi estranho.

 

 

 

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André Diniz é roteirista e desenhista brasileiro de HQs. Publicou mais de 30 títulos por diversas editoras brasileiras, tendo sido publicado também na França, Inglaterra, Polônia e Portugal, país onde vive hoje. Entre seus trabalhos mais conhecidos, estão 7 Vidas, Morro da Favela, Que Deus Te Abandone e O Idiota.

Jornalista. Sonho em me tornar uma mistura de Lizzie Bennet e Tracy Whitney, tirando a parte fora da lei. Ler e escrever são o que mais gosto de fazer. Fico nervosa sem um livro na bolsa ou quando não acho caneta e papel quando a inspiração vem. Tenho sonhos a lá filme de Spielberg, ilusões amorosas por Mr. Darcy e obsessão por Harry Potter.