Resenha: ‘Palavras de Rua’, de Felipe Saraiça

9 de novembro de 2017 às 12:20 | Por

A jornada de João pelas ruas é cruel e muito verossímil. Felipe Saraiça retrata, sem sentimentalismo barato ou vitimização, a vida de alguém que fez o que pôde com o destino que sua vida cursou. O livro emociona por conta do realismo da história retratada, que faz o leitor abrir os olhos ao seu redor, transpusendo a barreira da ficção. Aquela história, pode e está acontecendo neste exato momento e com “Palavras de Rua” você não consegue mais ignorar isso.

 

João é um personagem vivo, ele se encontra entre nós, em uma sociedade que descrimina e segrega aqueles que consideram estar abaixo da maioria dominante. Ele está do outro lado da rua, catando latas, está nas portas dos restaurantes, são aqueles que temos medo, ou simplesmente ignoramos a existência. O livro, de forma leve e muitas vezes divertida, acaba nos tirando da zona de conforto. Ao pensar em toda a luta de João, e associa-la a de tantos outros, fazemos uma reflexão introspectiva. O mundo estaria acabando com a nossa empatia pelo próximo?

 

Desde a dedicatória à parte A história por trás da história, é perceptível que há muito do autor em seu texto. A sensibilidade no trato a temas complicados, a escolha de cenas cotidianas ao invés de fantasiosas, e a profundidade extraordinária em um texto simples a primeira vista, faz com que o livro tenha personalidade e assim, marque aquele que o ler.

 

O livro é contado de forma não linear, revezando o momento atual com diversos flashbacks e é com eles que conhecemos o passado de João e os motivos pelo qual ele virou morador de rua. A história é narrada em terceira pessoa, pela perspectiva do personagem principal, e com isso, contemplamos com clareza os  sentimentos do menino em relação a cada experiência vivida.

 

São diversos os obstáculos que João tem de lidar. O amadurecimento do personagem no decorrer da história contribue para o destrinchamento de diversas faces de ser sem teto. Saraiça utiliza mais do que os pensamentos de João para nos mostrar como é lidar com uma vida cheia de incertezas, aquilo que não lhe cabe incluir na mente do personagem, ele fez que lhe escapasse pelos dedos. As poesias que João escreve como forma de escapar por alguns instantes da cruel realidade é de uma humanidade tocante.

 

Além de possuir uma narração fluída, apesar do revezamento temporal, como mencionado, o livro possui capítulos curtos, o que favorece o ritmo da leitura. O que faz com que as 184 páginas do livro sejam consumidas naturalmente. Afinal, trata-se de um livro agradável de ser lido, impressionante e inesperado.

 

O Homem Invísivel, referência ao título de um dos poemas presentes na obra, nos ensina, nos toca e nos emociona. Por tudo isso, “Palavras de Rua” é leitura indispensável, recomendada a todos.

 

Jornalista. Sonho em me tornar uma mistura de Lizzie Bennet e Tracy Whitney, tirando a parte fora da lei. Ler e escrever são o que mais gosto de fazer. Fico nervosa sem um livro na bolsa ou quando não acho caneta e papel quando a inspiração vem. Tenho sonhos a lá filme de Spielberg, ilusões amorosas por Mr. Darcy e obsessão por Harry Potter.