24 julho, 2017 às 18:01 | Por

Crítica: Anime Yojouhan Shinwa Taikei (The Tatami Galaxy), sem spoilers

Se você pensa que já viu de tudo em anime, pense de novo.

Jovem e cheio de sonhos e esperanças sobre uma vida universitária cor-de-rosa, o protagonista de Yojouhan Shinwa Taikei começa sua jornada no mundo dos adultos uma marca atrás de todo o resto. Morando num condomínio caindo aos pedaços, sem família para lhe dar apoio, ele se apaixona pela caloura Akashi, e conhece Ozu, um rapaz “que parece um youkai” que, apesar de ser seu único amigo, parece se esforçar ao máximo para fazer da sua vida um total fracasso – e consegue. Sua antecipada trajetória universitária é uma desventura cheia de decepções: ele não se torna popular, não faz mais amigos, não tem uma grande perspectiva profissional, não ganha a garota.

 

Ao compartilhar todas essas coisas com um estranho que se diz um “deus do matrimônio”, tarde da noite numa barraca de lámen, ele se vê lamentando como tudo parece ter dado errado no que antes tinha tanto potencial. Três anos jogados fora. Apenas arrependimentos. Todas as escolhas foram as erradas. Se eu ao menos não tivesse conhecido o Ozu.

 

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Kouhai Akashi-san toda maravilhosa de costas, com Ozu à direita.

 

Parece muita coisa? É apenas a introdução. No segundo episódio, o expectador encontra nosso jovem herói de novo entrando na universidade, desta vez unindo-se a um clube de artes audiovisuais. Todas as suas desventuras se sucedem novamente de um jeito diferente, e, no fim, ele se arrepende outra vez. No terceiro episódio, mais uma vez no herói sonhador inicia a faculdade, agora no clube de ciclismo; mas, que pena, a deusa da fortuna não quer mesmo sorrir para o nosso protagonista. Que pena.

 

No início da série, o expectador pode se encontrar confuso e completamente fora de propósito. Por que eu estou assistindo a isso?, ele se pergunta. Ao final de cada episódio, o relógio retrocede e concede ao protagonista sem nome uma nova chance de viver seu sonho universitário – só que as coisas sempre dão errado de um jeito diferente, levando a amargos arrependimentos tragicômicos. Não é um anime tradicional, o expectador já observou, no entanto, antes que perceba, está hipnotizado pelas idiossincrasias dessa narrativa descontínua. Certos elementos de uma linearidade estão sempre lá, mas são quase como peças de um quebra-cabeça que você não se importa em montar – até que você precisa. O diretor pervertido do clube de cinema, o velho deus casamenteiro, o amigo pilantra com cara de youkai, a dentista da turma de inglês, a sociedade secreta dedicada a roubar bicicletas, a misteriosa barraca de lámen, a velha vidente suspeita – e sempre, sempre ela, a taciturna e admirável caloura Akashi, por quem o protagonista se vê atraído mil vezes em mil situações diferentes, com a única convergência de que ele não sabe como se aproximar dela.

 

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Personagens centrais da trama num tatame de seis partes.

Baseado no romance homônimo de Tomihiko Morimi, The Tatami Galaxy, como se tornou mais conhecido no Ocidente, é sobre escolhas, aquilo que fazemos com o nosso tempo e as pessoas ao redor. Embora não pareça, com sua atmosfera densa e texto massivo (que faz muita gente assistir pausando a cada quinze segundos), a série constrói ao longo de apenas 11 episódios uma narrativa complexa e cheia de altos e baixos, aquis e alis, e segredos que deixarão o expectador de queixo caído conforme se aproxima do final. Um clímax inesperado, quando a história começa a se dobrar sobre si mesma de forma bastante literal, obrigando as engrenagens do cérebro do nobre expectador a girarem mais rápido conforme a trama se encaixa como as peças de um tatame no quarto – dois, seis ou quatro tatames e meio, que formam um quadrado confortável e perfeitamente simétrico.

 

Se você alguma vez já achou que sua vida social era uma comédia dramática, ou já se pegou especulando o que seria se tivesse tomado aquela decisão em vez dessa, vai se identificar muito com o protagonista, que é praticamente uma folha branca cheia de inocência e cultura literária. Do Conto da Princesa Kaguya a Franz Kafka, a personagem narradora se utiliza de imagens e comparações o tempo inteiro para explicitar seus sentimentos.

 

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Se você acha esta capa bizarra e surreal, então tudo bem. Tudo está como deve ser.

Apesar de não ser um anime do veio popular, Yojouhan Shinwa Taikei é uma obra delicada e surpreendente, que, de forma leve e ainda profunda, lida com temas relacionados à maturidade que raramente se vê nos desenhos japoneses – a começar pelo curso superior. Não é uma história de amor, embora haja uma história de amor. Não é uma trama de suspense, embora haja uma trama de suspense. Não é um drama escolar, embora haja drama escolar. Porque, sabe, a vida não é nenhuma dessas coisas, embora seja todas elas ao mesmo tempo.

 

A animação, que é um ponto fora da curva da indústria (pra variar), fica por conta da Madhouse. O design dos personagens é de Yuusuke Nakamura, e se você acha que já os viu antes, é porque esse artista é o capista dos álbuns do Asian Kung-Fu Generation – que, aliás, toca o tema do anime. O encerramento é interpretado pela Etsuko Yakushimaru, e ambos – abertura e fechamento –, quase tão estranhos quanto o anime em si, definem perfeitamente o tom para a história reflexiva e introspectiva na qual você está prestes a mergulhar. Se tudo der errado, ao menos você fez o que gosta, não é?

 

Ou será que fez?

 

Não seria confuso contar a alguém todos os seus problemas, sua trajetória, por que tomou aquelas decisões, e explicar como se sentia e como tudo de ruim que aconteceu foi uma complexa soma de fatores externos que, no fim, você sente como se fosse tudo culpa da sua extraordinária incompetência? E como isso faz perfeito sentido na sua cabeça, apesar das infinitas possibilidades e de todos os mundos que existem no mundo? Isso tudo num espaço de vinte minutos, sem que o interlocutor ficasse perdido?

 

Pois se prepare para ser o interlocutor.

 

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Charles Lindberg

Professor e escritor recifense. Filho da Rowling criado por Tolkien e apadrinhado pelo King. Apaixonado por literatura, cinema, música, animes e games. Fascinado por História, Astronomia e cultura mundial, do tipo que estuda só porque é legal saber. Fala demais e gosta de resenhar coisas. Vai encher o seu saco porque Robb Stark não é ruivo na série.