Entrevista: Abduções, buldogues e Wagner Willian

16 de junho de 2016 às 10:51 | Por

Bulldogma, obra de Wagner Willian, mostra a vida da designer e ilustradora Deysi Mantovani, que após se mudar para um apartamento com histórico de abduções alienígenas, passa a vivenciar diversas situações estranhas no seu dia-a-dia. Com mais de 300 páginas a HQ acompanha a rotina profissional de Deysi e ainda a amorosa, que está um desastre.  Tudo isso, é claro, acompanhada do buldogue francês Lino.

 

Mistura de ficção científica, humor e drama, o criador a define como “Um romance gráfico com elementos de nouvelle vague, flertando com o extraterreno, com o surrealismo nosso de cada dia.” Wagner realizou uma grande campanha de divulgação da obra, incluindo uma série de entrevistas, denominada “O Flerte da Mulher Barbada”,  feitas pela personagem com diversos nomes dos quadrinhos e a liberação de matérias extras no site oficial.

 

Em entrevista exclusiva ao Mais QI Nerds, Willian deu detalhes sobre as suas inspirações para a criação da HQ e ainda falou sobre seus futuros projetos. Muita coisa boa está por vir!

 

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Como definiria Bulldogma?

– Um romance gráfico com elementos de nouvelle vague, flertando com o extraterreno, com o surrealismo nosso de cada dia. O mise-en-scène de uma ilustradora de livros infantis e embalagens publicitárias. Um ensaio sobre a quebra da realidade sob os olhos atentos de um bulldogue francês. E por aí vai…

 

Em entrevista, você contou que a sua inspiração para a criação da HQ foi um anúncio sobre a venda de um apartamento onde o vendedor alegava que queria deixar o imóvel por conta de abduções aliens. Conta um pouco mais sobre isso.

 

–  No Lobisomem Sem Barba existe um elemento que funciona como uma ressonância entre os minicontos que é justamente a figura sobrenatural desse provável lobisomem. Achei interessante trabalhar com essa coisa que se sobrescreve a narrativa. No caso do Bulldogma, veio na forma intergalática. Havia lido essa matéria em um site de corretagem sobre o anúncio da venda de um imóvel aparentemente normal no Rio de Janeiro. O que chamava a atenção era o motivo da venda. O falso proprietário (alguém que havia se apropriado de um anúncio real) explicou no motivo da venda o fato de estar cansado de ser abduzido, era a trigésima vez, justificando que isso acontecia porque o solo daquele bairro era rico em silício (segundo o autor Douglas Adams citado pelo anunciante, o silício é base para o combustível de naves interplanetárias). O que eu fiz no Bulldogma foi criar uma onda de apartamentos como esse em todo território nacional. Esse caso curioso serviu como uma das inspirações à HQ, mais precisamente como o elemento escolhido para criar a “ressonância”. A ideia para escrever o Bulldogma nasceu da própria personagem Deisy que figura entre as páginas do Lobisomem Sem Barba.

 

A protagonista da história é uma ilustradora. Qualquer semelhança com o autor é mera coincidência?

 

– Antes fosse! Acabei usando a Deisy Mantovani para desmistificar o mercado de ilustração publicitária, onde nada é o que parece.

 

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Quanto tempo durou a produção total da HQ? Qual a técnica utilizada?

 

– Praticamente dois anos. A ideia inicial era faze-la toda no nanquim, o que levaria o dobro do tempo para finalizar. Estamos falando de 320 páginas. (assobio) Acabei partindo para o digital mesmo.

 

Já tem em mente qual o próximo projeto?

 

– Acredito que até o final do ano sairá pela Veneta o livro de entrevistas mencionado no Bulldogma: “O Flerte da Mulher Barbada“. Já deve ter uns setenta entrevistados. Todos ligados aos quadrinhos. Fora isso, trabalho atualmente em dois novos romances gráficos: “O Maestro, o Cuco e a Lenda” e “Silvestre”.

 

A maioria de suas obras tem referências à animais. Isso foi pensando ou simplesmente aconteceu? Conte sobre o que já tem publicado.

 

– O  primeiro foi o “É Bem Difícil”, livro infantil disponível no Social Comics, e na sequência o “Lobisomem Sem Barba” (Balão Editorial), “Deus é o Jiraiya” (Nébula), “Antes da Razão” (catálogo de arte), “O Impossível Cavalo de Bronze” (Balão Editorial) e finalmente “Bulldogma” (Veneta). Antes de trabalhar com quadrinhos ou literatura, venho desenvolvendo um trabalho nas artes plásticas através de várias séries. A maioria delas sobre animosidade, animalidade e sua vontade de romper os limites racionais.

 

Você tentou financiar a publicação da HQ por um plano de merchandising que envolveria cervejarias reais. O que acabou não acontecendo e você optou por uma editora. Cada vez mais artistas escolhem a publicação independente ou através de projetos de financiamento coletivo, o que acha disso? Conseguir publicação em editora ainda hoje é algo difícil?

 

– Acho ótimo! Acredito que a maioria busca publicação independente pensando muito mais em ter um retorno financeiro além dos 10% de praxe que as editoras costumam pagar do que por negativas de publicação. A vantagem de se publicar por uma editora está no alcance de distribuição. São raras as livrarias e mesmo distribuidoras que trabalham com material independente. Então é uma questão de se colocar tudo na balança e ver qual a melhor medida para cada um. Se você enquanto autor é um bom gestor e marqueteiro, ótimo, publicar de maneira independente é a melhor saída. Do contrário, é melhor deixar na mão de uma editora que faça esse papel enquanto você fica livre para trabalhar em seu próximo e polêmico quadrinho.

 

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Jornalista. Sonho em me tornar uma mistura de Lizzie Bennet e Tracy Whitney, tirando a parte fora da lei. Ler e escrever são o que mais gosto de fazer. Fico nervosa sem um livro na bolsa ou quando não acho caneta e papel quando a inspiração vem. Tenho sonhos a lá filme de Spielberg, ilusões amorosas por Mr. Darcy e obsessão por Harry Potter.